10.000 A.C.

by

10000ac.jpg

Por Claudio Prandoni

Confesso que não tinha ouvido muito sobre este filme. Havia ouvido um zumzumzum sobre uma nova produção épica de Rolland Emmerich, com dinossauros coisa e tal. Dinossauros. Não tinha como dar errado.

Porém, como os estudantes de História e aficionados pelos lagartões devem ter sacado pelo título, não há dinossauros na película. Afinal, eles sumiram há mais ou menos 65 milhões de anos. Quase nada (tripa seca?)…

Ok. Decepção 1.

Vamos lá, não tem dinossauros, mas não é o fim do mundo. Na verdade é. Ao menos para a tal tribo dos Yagahl (a qual não consegui identificar de onde são). Toda temporada eles caçam mamutes. A economia destes homens primatas, capitalistas selvagens, gira em torno dos benditos mamutes. Você os mata, você é legal. Você não os mata, você é bobo. Você nem pode tentar matá-los é porque você é mulher ou criança. Simples assim.

A coisa fica feia quando os ventos anunciam a chegada de tempos tenebrosos por meio de uma linda garotinha de olhos azuis. Tem início aí uma lenda. Vulgo, primeiro clichê de uma série monstruosa.

Como faz em Independence Day, Rolland Emmerich desfila aqui uma miríade de idéias batidas. Porém, sem explosões. Ou aliens. Ou Will Smith. Ou dinossauros.

Para piorar, o período de tempo abordado é totalmente inapropriado para os clichês exibidos. Como assim amor platônico e fiel numa época em que homens conquistavam mulheres abatendo feras (e mamutes, nada de dinossauros) e eram adeptos da poligamia? Você quer que eu acredite nisso? Desculpe…

Isso. Decepção 2.

Além disso, o herói não possui carisma algum. Por conta da pataqüada do parágrafo aí de cima, ele acaba caindo, tropeçando e se ralando em todo tipo de armadilha pelo caminho. Calha que em muitas delas ele se enquadra numa série de mitos e profecias, que eventualmente levam ele a domar um tigre dente-de-sabre e liderar um exército monstruoso contra uma recriação assaz escalafobética e fashion dos egípcios.

Ah, no meio do caminho ele enfrenta também avestruzes mutantes (ninjas?) e fica sabendo da história do pai que fugiu mas na verdade não fugiu e é um mártir desconhecido. Anote aí, mais clichês.

Troféu cereja no topo do bolo: a ridícula homenagem (eu diria cópia descarada) do desfecho do confronto entre Xerxes e Leônidas em 300, só que aqui com um toque de limão. Ou seja, uma pequena, porém contundente diferença que tira absolutamente toda graça.

Decepção 3.

O manto de personagem bobo não cabe apenas ao protagonista. A mocinha indefesa serve apenas como mocinha indefesa e praticamente todos os outros membros da tribo Yagahl são por demais irritantes. O único que se salva é Tic Tic, guerreiro ancião da tribo e único personagem até agora do qual citei o nome – ele merece. Dono de honra e lógica imbatíveis, ajuda a conferir a certos excertos o tom épico e suntuoso que deveria perdurar durante toda a obra.

Mas devo dizer, as outras tribos são bacanas. Somos apresentados a um amplo leque de facções guerreiras (aparentemente africanas) com costumes, trejeitos e indumentárias típicas fascinantes e convincentes. Até mesmo a releitura espalhafatosa dos egípcios tem lá seus méritos por representar de maneira visual todo um pensamento preponderante daquela sociedade na época. O faraó sob véus é uma figura misteriosa e até certo ponto assustadora.

A produção é igualmente impecável. Locações mil, que vão de florestas densas a desertos áridos e montanhas gélidas. Figurinos de época detalhados (o que pode parecer estranho), mas que funcionam no que diz respeito a entreter – convencer é outro papo. As criaturas geradas por computação gráfica são magnificentes. Os mamutes trombam de maneira verossímil e os pêlos do tigre se encharcam e brilha com naturalidade. Rivalizam ferrenhamente com o leão Aslan, de As Crônicas de Nárnia.

Fato: no começo é possível distinguir algumas cenas com efeito de fundo verde mal aplicado, mas nada que comprometa (ainda mais) 10 000 A.C.

É trilha sonora é padrão, reforçando o tom épico, mas sem melodias marcantes – luxo executado de maneira magistral em O Senhor dos Anéis.

Obviamente não contarei o final aqui, mas como você já deve imaginar ele é previsível. Mesmo a suposta surpresa do clímax é clichê, batida, sem graça e premeditada lá pela metade do longa-metragem.

Pois é. Decepção… ah, já perdi a conta.

Confesso que saí do cinema com um vazio espiritual. Meio minuto depois, senti a sensação de desperdício. O filme é tecnicamente competente e os atores trabalham bem – ainda que os personagens não ajudem muito. Ou seja, 10 000 A.C. não é ruim, mas está longe, muito longe mesmo de ser bom. É apenas nada.

(10,000 B.C.)

Direção: Roland Emmerich
Roteiro: Roland Emmerich,Robert Rodat,Harald Kloser
Produção: Michael Wimer, Roland Emmerich
Elenco: Omar Sharif, Cliff Curtis, Steven Strait, Camilla Belle, Joel Fry, Tim Barlow
Música: Harald Kloser

Anúncios

Uma resposta to “10.000 A.C.”

  1. Leandro Balboa Says:

    Concluo com essa resenha que desde os tempos mais primórdios, homem agiu com os institos mais selvagens que o governa até os dias de hoje. Mesmo porque não havia matrimônio nessa época, entao a poligamia era legalizada. Falowzz!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: