Não Estou Lá

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Por Claudio Prandoni

“Homem casado, poeta, cantor, compositor, guardião, porteiro…”

Bob Dylan é de tudo um pouco, ou ao menos é o que ele clama – essa frase aí em cima é dele numa entrevista pra revista Rolling Stone em 1969. Essa é também a presunção e êxito de Não Estou Lá, obra do diretor Todd Haynes fermentada por ele durante quase dez anos.

Com a mesma ingenuidade e magnificência da personalidade de Dylan, o longa-metragem é denso, psicodélico, apaixonante e desconfortável. E mais um pouco. Faltam adjetivos para traduzir com precisão (se é que isso é possível) a atmosfera um tanto quanto inebriante de Não Estou Lá.

A premissa é inteligente: uma reimaginação fragmentada da vida do músico, mostrando seus diversos momentos na carreira por meio de seis personagens distintos. A execução suplanta qualquer expectativa e previsibilidade.

Dylan diz que aceita o caos, mas não tem lá muita certeza se a recíproca é verdadeira. Para Todd Haynes ela é de uma forma desconcertante e magistral. O sexteto de figuras protagoniza sete histórias distintas, todas entrelaçadas. Porém, não de maneira lógica e cronológica – ao menos na maioria do tempo.

O entrecho faz flashbacks em flashbacks, salta à frente no tempo, pausa, retrocede, avança em câmera lenta, dá piruetas e saltos no ar sem a menor cerimônia. O conceito de “é um passeio numa montanha-russa” é batido, mas pode se aplicar aqui.

Não, não. Alto lá.

Estamos falando de Bob Dylan e um filme que consegue – nem que seja em parte – ser tão estranho quanto. Não Estou Lá é um passeio numa montanha-russa em câmera lenta e sem barra de segurança. Melhor assim. Gostei.

É difícil se situar. É difícil acompanhar as tramas e estabelecer relações entre elas. É quase como um jogo, mas aí que reside parte do encanto.

Cada faceta de Dylan é saborosamente representada por atores competência tremenda. Dentre eles, Cate Blanchett é quem dá as cartas, representando o Dylan mais icônico: o afetado rebelde do final dos anos 60, com cabelos desgrenhados, idéias torpes e recém-adepto de instrumentos eletrônicos e barulheira de guitarra. Praticamente um traidor do próprio ídolo folk que criara anos antes, vivido aqui por Christian Bale (o Batman!), numa performance cuidadosamente nervosa, envolvente.

Não que os demais fiquem devendo: o garoto Marcus Carl Franklin faz mais do que poderia se esperar de alguém jovem como ele, Richard Gere se encaixa perfeitamente e sem esforço ao Dylan country que faz e Heath Ledger e Ben Wishaw sobram para as funções designadas, a saber, esposo pop ausente e poeta controverso. Mas Blanchett e Bale se sobressaem, conferindo personalidades vibrantes às porções de Dylan que lhe couberam. Fantásticos.

Obviamente, a trilha sonora é regada a sucessos do cantor. Regada não. Permitam-me retificar novamente: encharcada, ensopada, curtida em composições das mais variadas. Somos apresentados a um leque quase infindável de estilos, ritmos e letras. Um dinâmico caleidoscópio que reflete a personalidade polivalente do artista. Mas não se trata de uma seleção aleatória, dentre um equilíbrio entre faixas famosas e obscuras (acredite, há mais do que o bastante dos dois sabores), as músicas combinam e fortalecem os momentos dramáticos da película. Uma combinação difícil de resistir. Uma trilha sonora bem escolhida pode ser determinante para a carga dramática de um filme, associar competência neste quesito aos momentos marcantes da biografia picotada e condensada e o clima etéreo e letras viajantes de Dylan é praticamente entorpecedor. Pode-se não entender absolutamente nada, mas a sensação que predomina é cativante.

Em tempo: a trilha sonora é composta por covers competentes de obras de Dylan. Boa parte é de responsabilidade de nomes famosos como Sonic Youth e Jack Johnson, e apenas uma é gravação original de Bob: a faixa que dá nome à película, numa versão rara (diz-se única), gravada em 1967.

Não vou mentir nem dourar demais a pílula: Não Estou Lá tem seus momentos enfadonhos. Por vezes, o ritmo é demasiado lento e cansa. Ademais, a seleção musical pode nem sempre agradar (não é todo mundo que vai se empolgar com música folk hoje em dia, né). Por fim, o caos fragmentado do roteiro pode ser confuso demais. Quem procura por um punhado de diversão passiva, por assim dizer, que deseja apenas sentar e acompanhar uma história não vai curtir muito. Não Estou Lá é praticamente um quebra-cabeça, uma obra interativa que lhe permite construir diversos sentidos a partir do que lhe é oferecido. Não há resposta certa ou errada, mas as peças estão lá para juntar.

Antes que eu me esqueça: o trabalho de fotografia segue o mesmo nível de qualidade. Tal qual a trilha, se transmuta e adapta ao Dylan em questão. Por vezes temos cenários coloridos e vibrantes, cortados sem dó nem piedade logo em seguida por tomadas totalmente em preto-e-branco, com enfoques e ângulos fechados desinibidos. Curioso que esse tipo de variedade se aplica também à própria percepção de mundo que nos é apresentada. Fiquei especialmente marcado por um trecho que exibe Jude Quinn, o Dylan de Blanchett, às estripulias com um quarteto que claramente alude aos Beatles. São poucos segundos, mas o humor e surrealismo escrachado da cena sintetizam este tipo de visão específica sobre o músico. Claro, as outras possuem suas peculiaridades, mas os segmentos de Blanchett são os principais, mais marcantes e contundentes.

Não Estou Lá é ousado, pesado, intrigante e complicado. Não é unanimidade, muito menos uma biografia tradicional. É uma visão inusitada de Dylan que consegue captar de forma marcante o período que compreende a ascenção e consolidação do ídolo que ele é até hoje. Pela forma de narrativa exótica e brilhantismo nas interpretações, Não Estou Lá parece destinado a se converter num clássico cult sobre cultura pop. Uma denominação um tanto quanto controversa, mas que convém. Afinal, traduz sucintamente o que é Bob Dylan.

(I’m Not There, Eua / Alemanha, 2007)

Direção: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes,Oren Moverman
Elenco: Cate Blanchett, Richard Gere, Julianne Moore, Christian Bale, Heath Ledger, Michelle Williams, David Cross, Ben Whishaw, Benz Antoine, Bruce Greenwood, Charlotte Gainsbourg

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Uma resposta to “Não Estou Lá”

  1. Novo chapéu para o Kirby #02 « Hadouken Says:

    […] There), filme que estreou recentemente e narra de maneira pouco ortodoxa parte da vida do artista. Achei fantástico. Incluindo a trilha […]

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