Across The Universe

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Por Claudio Prandoni

Confesso que filmes com premissas musicais me atiçam a curiosidade. Foi assim com Não Estou Lá e aconteceu o mesmo com Across The Universe. Apesar de o filme ter estreado no final do ano passado em alguns cinemas do circuito nacional, ele passou totalmente batido por mim. Só fui saber da existência dele por ocasião de um amigo que citou que gostaria muito de ver o filme “todo baseado em músicas do Beatles”.

Ele estava em exibição no CinePosto 4, em Santos, e praticamente no mesmo dia fomos assistir. Não li críticas ou conferi trailers antes de ir – apenas vi o pôster, bem bacana por sinal, e uma breve sinopse que fala de um casal apaixonado, anos 60 e músicas dos Beatles. Ou algo assim.

De fato, o roteiro vai bem por aí: somos apresentados a Jude, um rapaz britânico que não se importa muito com o futuro. Tem uma namorada a qual cativa com canções melosas dos garotos de Liverpool – aliás, cidade natal dele – e a vontade de conhecer o pai, um norte-americano que engravidou a mãe dele durante a II Guerra e os abandonou quando o rapaz ainda era “um pãozinho no forno”, segundo palavras do próprio guri.

Do outro lado do ringue está Lucy, uma bela americana loirinha de olhinhos azuis e apaixonadinha por um recruta do Exército. Uma graça. A perfeita representação do sonho americano. Ela passa os dias andando de bicicleta, estudando equações de segundo grau, escrevendo cartinhas açucaradas e contemplando a foto do futuro marido/pai de família o qual ela desposará.

Enfim. Eventualmente, tudo vira de ponta cabeça – habilidade marcante da década de 60 – e os dois acabam se trombando em Nova Iorque, se apaixonam e vivem uma tórrida e cativante relação amorosa.

Eles não estão sozinhos. A turma principal também conta com Max, irmão de Lucy que abandona a Universidade de Princeton e esbanja a grana da família vivendo loucamente na Grande Maçã junto com Jude. No mesmo apartamento estão: Sadie, dona do lugar, habilidosa cantora de boate e uma espécie de sedutora madura (vulgo eufemismo para quarentona); Prudence, uma mestiça oriental bissexual com crises pesadas de carência e Jojo, um guitarrista de mão e cheia e desempregado.

O entrecho oscila habilmente entre drama social e romances frívolos, com excertos marcantes de puro ácido, seqüências de nonsense e desequelíbrio absoluto. Ficção se entrelaça a História factual de maneira convincente e envolvente – alguns elementos de fato mesclam realidade e ficção, como Jojo e Sadie, que representam Jimmy Hendrix e Janis Joplin – ainda que por vezes o ritmo possa ser demasiado lento e fatigante.

Ok, agora a grande estrela: as músicas dos Beatles. São um total de 34 canções representadas diretamente na película, seja em pequenos trechos ou em versões arrojadas e elaboradas. Claro, há também uma miríade de referências visuais à cultura Beatlemania as quais os aficionados pelo quarteto vão se regozijar procurando – e os apenas curiosos vão checar no Wikipedia.

O legal é que elas não figuram como meros adornos: o enredo em si segue o que a música diz. Geralmente à risca. O efeito colateral é que Across The Universe ganha em alguns momentos um aspecto de colcha de retalhos. Por vezes a progressão da história beira a aleatoriedade em nome da fidelidade às letras das canções, mas mesmo assim o fato confere um sabor delicioso ao filme. Posso estar me repetindo, mas assim como em Não Estou Lá a presença musical confere uma atmosfera especial, indefinível, de certa maneira etérea ao filme. Não é algo denso e indecifrável como em Bob Dylan. Pende, obviamente, para a alegria latente dos garotos de Liverpool.

Permita-me ousar: roteiro explicado e estabelecida a conexão com os Beatles pelos laços musicais e referenciais, afirmo que a própria história soa como uma analogia à carreira do grupo. Tudo começa de maneira simples, alegre e irresponsável – a seqüência na qual Jude conhece Max é prova máxima disso, repleta de patetices. Porém, o desenrolar segue o mesmo caminho trilhado pelos músicos, com sua fase psicodélica e viajante (que me lembra Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band) e um clímax e desfecho notavelmente melancólico, introspectivo, mas ao mesmo tempo ainda apaixonado.

Por todas estas características, Across The Universe cativa a despeito do desempenho apenas mediano do jovem elenco. Talvez por conta da própria proposta de filme, fico com a impressão de que as atuações são exageradas demais. Ao menos, o casal principal, vivido por Jim Sturgess e Evan Rachel Wood, parece dosar melhor as emoções e mostra uma química legal na tela. É aquele tipo de casal pelo qual você torce para que fiquem juntos ao final.

Pontualmente, há surpresas no elenco. Na parte psicodélica, temos Bono Vox (isso, o cara do U2) fazendo um escritor-cantor-bicho-grilo que na verdade parece representar o que o próprio Bono significa quando em palco: um ótimo intérprete de canções (aqui uma bela versão de “I Am the Walrus”)que postula uma espécie de compreensão superior (e em outro plano da sociedade). De chapéu de cowboy. Ah, também barba e bigode e uma atuação breve porém tão boa que faz você pensar por que ele não aparece em mais filmes.

Salma Hayek também aparece, mas a participação é tão efêmera e inútil que só cito pelo fato dela ser famosa. Muita gente pode procurar por ela enquanto assiste: ela é a enfermeira que aparece clonada digitalmente quando toca “Happiness is a Warm Gun”. Muito mais proveitosa é a contribuição do pouco conhecido comediante Eddie Izzard como o excêntrico Mr. Kite – obviamente, quando tocam “Being for the Benefit of Mr. Kite!”.

O belo trabalho de direção é responsabilidade de Julie Taymor, diretora de poucas obras, mas competência extrema, tendo como expoentes o excelente Frida, de 2002, e o musical baseado no desenho animado O Rei Leão.

Across the Universe é um filme ousado como pouco se vê por conta da sua proposta inusitada. Curiosamente, vem ladeado pelo excelente Não Estou Lá. Entre os dois sou mais o último citado, mas ultimamente em decorrência da ousadia ainda maior na construção do roteiro. Across the Universe opta por uma narrativa tradicional sedimentada numa premissa criativa – o que por si só já vale uma assistida na minha opinião, seja você fã ou não dos Beatles. Para os apaixonados pelo grupo é uma obrigacão, não tanto pelo valor cultural, mas pela verdadeira ode que o filme é.

(Across The Universe, 2007, Estados Unidos)

Direção: Julie Taymor
Roteiro: Dick Clement,Ian La Frenais
Elenco: Evan Rachel Wood, Jim Sturgess, Joe Anderson,Dana Fuchs, Martin Luther McCoy, T.V. Carpio, Salma Hayek, Eddie Izzard, Bono Vox

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4 Respostas to “Across The Universe”

  1. Israel Says:

    Parabens, sua visão sobre o filme e extraordinario. è isso mesmo que o filme é , um bom filme com suas resalvas, mas impertivel. Amei ouvi as cançoes do Beatles na voz dos atores. Um belo filme.
    Novamente PARABENS pela sua sensibilidade.

  2. Pablo Raphael Says:

    Filmaço. Encontrei por acaso na Sky e me apaixonei.

  3. Thiago Says:

    Muito bom! Excelente ponto de vista… Acho que só vale a pena citar também o Joe cocker, que participa brilhantemente cantando come together… Eu não gosto de musicais, não sei nem o nome de nenhum outro, mas Across the Universe é sem dúvida um dos melhores filmes que eu já vi na minha vida.

  4. Carla Carvalho Says:

    o mais lindo do mundo!

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