Acossado

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(À Bout de Souffle, 1960, França, 90 min)

Por Gustavo Lucas

Um jovem, hoje, que resolva assistir um filme de Jean-Luc Godard como, por exemplo, “Acossado” (A Bout de Soufle, 1959), se não tiver algum conhecimento prévio do que acontecia no cinema do pós-guerra, vai se perguntar: “onde está a tal obra-prima?”.

Para respondermos esta pergunta temos que entender o movimento cinematográfico da Nouvelle Vague (nova onda) do qual “Acossado” faz parte.

Em meados dos anos 1950 na França, críticos da revista “Cahiers du Cinéma” (entre eles Jean –Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol e Eric Rohmer) começam um movimento no qual repudiam o cinema comercial e buscam uma linguagem nova, original, para o cinema da época.  Para isso, passam a estudar as obras de diretores que eles classificam como “autores”, dentre eles Alfred Hitchcock, Jean Renoir, Jacques Tati e os diretores do neo-realismo italiano, como Roberto Rossellini, Vittorio de Sica e Luchino Visconti.

Deste estudo, saíram filmes como “Nas Garras do Vício” (Le Beau Serge, 1958) de Claude Chabrol e “Acossado” (1959) de Jean-Luc Goddard, marcos inicias do que a escritora Françoise Giraud chamou de Nouvelle Vague. As características mais marcantes deste movimento eram produções de baixo orçamento, atores desconhecidos, poucas qualificações técnicas, temáticas cheias de discussões existencialistas, quebra de narrativa, entre outros aspectos que batiam de frente com a linguagem vista até então no cinema.

Em “Acossado”, a história partiu de um argumento de François Truffaut que, baseado em uma notícia de jornal, juntou-se a Claude Chabrol para escrever o roteiro, que contou também com Jean-Luc Godard no processo. Mesmo com roteiro aparentemente finalizado, ele ainda era reescrito diversas vezes durante as filmagens.

A história gira em torno de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo), um marginal inconseqüente que, a bordo de um carro roubado rumo a Paris, acaba matando um policial rodoviário. Em Paris, ele revê a bela estudante americana Patricia Franchini (Jean Seberg) e a convence a escondê-lo em seu apartamento até que possa receber o dinheiro de uma dívida e fugir, junto com ela, para a Itália.

A narrativa do filme é fragmentada, ou seja, alguns elementos da trama não são explícitos na tela, como por exemplo, na seqüência em que Michel mata o policial e sai correndo. E, apesar de ser um filme policial, parte do filme se passa dentro do apartamento de Patricia, onde ela e Michel conversam sobre a vida, a morte e a arte.

O próprio comportamento dos atores em cena é diferente, enquanto nos filmes clássicos a câmera é vista como um observador que não faz parte daquele mundo, apenas acompanha os acontecimentos, já nas produções da Nouvelle Vague, o espectador é convidado a participar da história a partir do momento em que o ator olha para a câmera e começa uma “conversa com o público” de forma a instigar discussões sobre os mais variados assuntos.

Ironicamente, “Acossado” foi refilmado em 1983 em uma produção norte-americana dirigida por Jim McBride com Richard Gere como o marginal Jesse. Aqui os eventos são transportados para os Estados Unidos dos anos 1980, e a nacionalidade dos personagens é invertido, de forma que a garota, a americana Patricia do original, aqui é a francesa Monica Poiccard (Valérie Kaprisky). E a rota de fuga do protagonista começa em Las Vegas de onde segue para Los Angeles, rumo ao México.

A refilmagem, que contou com uma primeira versão do roteiro escrita por Michael Mann (O Informante – The Insider de 1999, com Al Pacino e Russel Crowe), não obteve o mesmo impacto que o original em sua época, mas mesmo assim não deixa de ser um filme interessante de se assistir.

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