O Guru e os Guris (1)

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O OUTRO GURU DOS GURIS

Por Gustavo Lucas

Entre os vários pontos que estabelecem vínculos entre cinema e psicanálise, um dos mais interessantes é a ocultação de elementos, seja um personagem, um fato, um objeto. Aquilo que não se mostra, mas é sugerido pela imagem. Na linguagem da psicanálise, este elemento é conhecido como o “Outro”. “Uma dimensão exigida de que a fala se afirme em verdade”, segundo Jacques Lacan. O Outro revela-se pela linguagem, pelas lacunas da fala através das quais se pode detectar ou descobrir a causa oculta que motiva o sujeito.

Essa visão “lacaniana”, concepção teórica desenvolvida por Lacan em sua interpretação das idéias de Freud, pode ser aplicada para entender o ambiente ideológico do grupo de intelectuais e simpatizantes de cinema que se reuniam em torno do Clube de Cinema de Santos, no período que vai da década de 1950 à década de 1970, a partir do documentário “O Guru e os Guris”

O filme tem como personagem central o coordenador do Clube de Cinema de Santos, Maurice Legeard, e o tema, como sugere o título, é a influência ou liderança desse personagem sobre os afiliados e simpatizantes da associação, representados pelos “chapinhas” que formam o elenco. “Chapinha”, diminutivo da tradicional expressão “meu chapa”, é o termo usado por Maurice Legeard ao se referir aos seus amigos durante uma conversa.

Guru, termo originário do sânscrito, refere-se à sombra (gu) e a luz (ru). Na tradição indiana, é o indivíduo que, dotado de grande conhecimento e sabedoria, orienta as pessoas na busca da verdade, aquele que ilumina o caminho. Implica uma relação de professor e aluno. No Ocidente, a expressão é utilizada para indicar, com reverência, aqueles que exercem grande influência, geralmente filosófica ou religiosa, mesmo sem estarem afiliados a instituições como igrejas ou escolas. Guri, que vem do guarani, quer dizer menino, criança.

O título do filme faz uso de um interessante trocadilho que aponta para uma relação professor/aluno entre Maurice Legeard e os chapinhas (além de outros que estes representam).

Podemos resumir as situações em que o filme exibe o relacionamento entre o guru e os guris em alguns ambientes e cenas:

  • Introdução – vários takes de Maurice Legeard e duas falas (uma sobre a falta de percepção das pessoas, outra sobre a ação do Clube de Cinema). Seguem os créditos do filme
  • Caracterização do Guru – Maurice fala das condições do cinema no Brasil, e das diferenças com as condições na França. Afirma que é necessário criar “o absurdo do absurdo”, algo como radicalizar o absurdo ao qual as coisas haviam chegado. Mostra seu ambiente de trabalho, pontuado pela exibição de alguns artigos críticos do diretor (Jairo Ferreira).
  • O Guru e os Guris (meninos) – programação de uma sessão infantil com o filme Vampiro de Dreyer. A audiência infantil agride Maurice, atirando nele pipoca e chicletes. Crítica ao cinema infantil americano (Walt Disney)
  • Queimando o filme – Maurice sobe ao Monte Serrat, junto com um chapinha, e fala do desconhecimento dos brasileiros sobre o cinema brasileiro. Critica autores da vanguarda cinematográfica (Goddard, Buñuel, Fellini etc.). Critica e contrapõe Walter Hugo Khouri a Mazzaroppi e outros cineastas menos considerados. Volta a questão do “absurdo do absurdo”.
  • O Guru e os Guris (chapinhas) – em torno de uma mesa de bar (Restaurante Ponderosa, em Santos), Maurice discorre com alguns chapinhas, sobre a postura do pessoal de cinema, afirmando que “o problema do cinema brasileiro é Terra em Transe, Deus e o Diabo.”

A narrativa cinematográfica e a evolução do texto, finalizando com a declaração sobre filmes de Glauber Rocha, oferecem uma pista para desvendar a condição de Maurice Legeard, nessa posição de guru em que é colocado.

Mas para isso, é preciso considerar que, se o guru é uma das modalidades em que se manifesta a figura do Outro, como elemento necessário à compreensão do mundo, esse processo de assimilação da realidade retrocede automaticamente na corrente histórica, quando se encarna em uma pessoa (no caso Maurice) a figura do guru. Pois se essa figura coincide com um ser humano específico, faz surgir a questão de qual será o modelo seguido como exemplo por esse guru. Ou seja, quem seria o guru do guru, o outro guru por trás deste guru. Nesse sentido, o filme nos leva a deduzir que o guru oculto sob a fala e a postura de Maurice Legeard é o cineasta Glauber Rocha, com toda a sua crença cultural e política.

A conclusão parece ser confirmada pelo cineasta Arnaldo Jabor, em artigo sobre o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, escrito para a Folha de São Paulo em 1994.

Refletindo sobre o momento da exibição do filme, trinta anos antes, Jabor começa dizendo que “às oito e meia da noite de 16 de março de 1964 eu não sabia que minha vida ia mudar. Às nove horas ia passar pela primeira vez no Brasil o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.” Após caracterizar o momento histórico, as condições políticas, as expectativas sociais e os padrões estéticos da intelectualidade da época, ele fala da reação dos cineastas ao filme.

“Olhei para trás quando as imagens finais do filme brilhavam, sob o som de Villa-Lobos. Vianinha estava em pé na cadeira do cinema e pulava de euforia. As pessoas estavam pálidas da luz final como diante de fantasmas. Os cineastas entraram em pânico. O rio tinha mudado de curso. Quem partira para fazer filmes veristas, filhos do neo-realismo fora pegado pelo raio de um cinema épico, me disse trinta nos depois Cacá Diegues. Joaquim Pedro falava em rasgar o roteiro de O Padre e a Moça. Ruy Guerra terminava a montagem de Os Fuzis e começou a mexer em tudo, ficou meses na moviola.”

O texto é bastante competente ao mostrar a força e o impacto da obra e da postura de Glauber. “A esquerda tinha errado por muitos anos. Nossos dias estavam contados. A importância de Glauber na reforma de pensamento da esquerda do país é maior que se pensa.(…) Glauber tinha feito uma revolução dentro da revolução. Trinta anos depois daquela noite… vemos hoje que a idéia de processo e de diferença continua inapreensível como uma asa”  E Jabor finaliza o artigo dizendo que “precisamos de um novo filme como Deus e o Diabo na Terra do Sol. Aluguem em vídeo e vejam o que era o futuro.”

Se atentarmos para o fato de que “O Guru e os Guris” foi realizado nove anos após esse fato histórico, e cinco anos após as restrições políticas impostas pelo Ato Institucional n. 5, de 1968, fica mais evidente a força do pensamento de Glauber Rocha na formação de Maurice Legeard, e na conseqüente transmissão de valores para os seus chapinhas.

E aqui cabe uma última questão, sobre a objetividade/subjetividade: da posição dos chapinhas na condição de guris, orientados pelo guru Maurice Legeard. Como o filme tem o roteiro do próprio diretor, Jairo Ferreira, resta considerar sobre o seu envolvimento com o assunto.

Voltamos então ao segundo aspecto do resumo do filme acima, quando, ao caracterizar o guru Maurice, o diretor Jairo insere suas próprias críticas de cinema entre as falas do personagem. Ao se incorporar desta forma à ação fílmica, o diretor parece assumir também a condição de guri ou, ainda, de quem compartilha os mesmos ideais do guru Glauber oculto sob o personagem do guru Maurice.

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