O Banheiro do Papa

by

banheiro_do_papa

Por Gustavo Lucas

César Charlone estréia, juntamente com Enrique Fernández, na direção do premiado longa-metragem “O Banheiro do Papa” (El Baño del Papa”, 2007), uma co-produção Brasil, Uruguai e França.

Uruguai radicado no Brasil, Charlone tem em seu currículo a direção de fotografia dos filmes “Cidade de Deus” (2002), “ O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener, 2005) e “Ensaio sobre a Cegueira” (Blindness, 2008), todos dirigidos pelo brasileiro Fernando Meirelles.

A história gira em torno da real visita do Papa João Paulo II à pequena cidade de Melo, na divisa do Brasil com o Uruguai, no final dos anos 1980. A notícia da visita pela mídia local deixa os habitantes da cidade em alvoroço que, a poucas semanas do evento, começam a planejar formas de ganhar dinheiro com a vinda de milhares de pessoas para o lugarejo, já que a condição financeira local é precária e o evento é uma chance de melhorar de vida vendendo comida, souvenires, entre outras coisas, no dia.

O filme é centrado em Beto (César Trancoso) e sua família. Beto ganha a vida transportando mercadorias em sua bicicleta através da fronteira. O sonho de Beto é ter uma motocicleta, pois assim as viagens seriam mais rápidas, lucrativas e menos cansativas, e vê na visita do Papa como uma chance tentadora para realizá-lo. Mas, diferente de outros habitantes da cidade, ele tem a idéia de construir um banheiro para que os turistas possam utilizar sob cobrança.

O filme possui uma trama muito interessante misturando realidade com ficção, a forma como Charlone e Fernández vão discorrendo a história intercalando com algumas cenas em que habitantes de Melo são entrevistados para um telejornal mostrando suas crenças de que a visita do Papa irá fazê-los melhorar de vida, aumenta a simpatia dos espectadores pelos personagens. Mesmo parecendo um pouco lenta às vezes, a narrativa está longe do ritmo frenético e nervoso a que estamos acostumados a ver no cinema norte-americano, assim como as relações estabelecidas entre os personagens.

A direção de fotografia de Charlone começa a mostra todo seu potencial já na seqüencia de abertura, onde mostra a sombra no chão das bicicletas em movimento nas belas locações da divisa entre os dois países.

O filme apresenta elementos em comum com o cinema neo-realista italiano de Vittorio de Sica e o seu “Ladrões de Bicicleta” (Ladri di Biciclette, 1948 – ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1949) tanto por colocar a bicicleta como meio de subsistência dos personagens como por fazer uso de atores amadores. A comparação entre Antonio (Lamberto Maggiorani, protagonista de Ladrões de Bicicleta) e Beto é bem clara, pois ambos são homens comuns à mercê do destino, que para terem uma vida digna dependem muito da sorte enquanto o mundo parece indiferente ao que acontece a eles.

Sem nunca perder sua identidade latino-americana, “O Banheiro do Papa” caminha entre o humor e o drama, e não falha ao transmitir sua mensagem; por pior que seja a situação, é preciso sempre ter esperança.

Anúncios

Tags: , , , , , , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: