Archive for the ‘Animação’ Category

A Trilogia do Balé de Norman McLaren

4 setembro, 2017

norman mclaren_22

*Do lado esquerdo da foto Norman McLaren e ao lado (de cima para baixo) Pas de Deux (1968), Ballet Adagio (1972) e Narcissus (1983).

Por Gustavo Lucas

 “Animação não é a arte de desenhos que se movimentam, mas sim a arte de movimentos que são desenhados. O que acontece entre cada quadro é mais importante do que o que acontece em cada quarto”.

Este é o conceito de animação defendido por Norman McLaren (1914- 1987), escocês que foi convidado para trabalhar para a National Film Board do Canadá em 1941, e realizou um significativo conjunto de obras que hoje é referência para qualquer um que venha a trabalhar com audiovisual.

No entanto, tal conceito só veio a surgir décadas depois de uma história centrada na animação de desenhos, ou seja, no ato de dar aos desenhos a ilusão do movimento. E apenas em produções isoladas, “independentes”, até as produções de Walt Disney, que tiram do desenho animado suas características de meros exercícios e experimentos e o inserem na indústria cinematográfica.

A obra cinematográfica de McLaren veio a mostrar novas possibilidades para o cinema de animação, expandindo seu universo para um espaço bem mais amplo do que o ocupado pelo desenho animado. E cada uma de suas obras confirma esse princípio conceitual, lidando com diversas técnicas de filmagem e de geração de imagens e movimentos, entre os quais ressaltam sua ação diretamente na película, tanto para criar elementos visuais como sonoros.

Entre suas experiências mais radicais, é importante citar um conjunto de três obras conhecido como a “Trilogia do Balé”, em que a animação é trabalhada a partir da filmagem de casais de dançarinos.

No primeiro, Pas de Deux (1968), leva no título o nome técnico dessa formação de dança. A posição dos dançarinos é congelada inúmeras vezes, em intervalos de curta duração, nos quais as posições intermediárias dos movimentos vão sendo exibidas como projeções da figura de cada bailarino.

O segundo filme, intitulado Ballet Adagio (1972), não há “interferência” na filmagem, que apenas mostra o casal dançando em tomadas frontais, com pouca alternância de planos, variando entre geral, médio e americano, e alguns zooms. A essência da animação está na aparente sincronia entre a dança e a música, só que enquanto esta é tocada em tempo real, a filmagem é feita em câmera-lenta. Pela simplicidade e força da idéia, esta talvez seja a mais radical dos três filmes que compõe a trilogia.

O terceiro e último filme da trilogia (e também o último dirigido por McLaren), Narcissus (1983), retoma os procedimentos do inicial Pas de Deux, só que utilizando efeitos de espelhamento e projeção das posições intermediárias que criam a sensação de alongamentos infinitos das mesmas.

Considerada a época em que foram realizadas, estas obras de McLaren antecipam em décadas a computação gráfica que se tornaria dominante, principalmente, a partir dos anos 1990.

Os trabalhos de Norman McLaren podem ser vistos no site da NFB – National Film Board of Canada (https://www.nfb.ca/).

Anúncios