Archive for the ‘Biografia’ Category

Maurice Legeard

9 novembro, 2017

maurice1

Por Gustavo Lucas

Na década de 70, Jairo Ferreira dirigiu um curta-metragem intitulado “O Guru e os Guris”, que registrou o papel desempenhado por Maurice Legeard no meio cultural da cidade de Santos e de toda a Baixada Santista. Se a figura de um guru, como o título diz, pode parecer exagero, não deixa de fazer jus à importância de Maurice na formação de muitos artistas e intelectuais da região, muitos dos quais ganhariam destaque no teatro, na música, na literatura, nas artes plásticas. E, é claro, no cinema, que era o seu campo específico de atuação, através das atividades que desempenhou no Clube de Cinema, Clube de Arte e Cinemateca da cidade.

A aproximação de Maurice com os círculos intelectuais e artísticos locais começou em 1950, quando se filiou ao Clube de Cinema de Santos. Ele não fez parte do grupo de fundadores da associação, que foi formada em 1948 (sendo uma das primeiras do Brasil), que ocorreu logo depois da reabertura do Clube de Cinema de São Paulo em 1946, inaugurado originalmente em 1940 e fechado logo depois pelo governo de Getúlio Vargas).

Em 1950, o grupo santista aluga um filme em São Paulo para inaugurar uma sessão periódica no Cine Bandeirantes, todos os sábados às 15 horas. A sessão inaugural foi com o filme “A Som­bra do Pavor” (Le Corbeau, 1943), de Henri-Georges Clouzot. Maurice Legeard começou aí sua colaboração efetiva, pois trabalhava numa empresa de automóveis que trans­portava passageiros entre Santos e São Paulo, os chamados “expressinhos”, o que facilitava trazer filmes para a Cidade.

A iniciativa teve sucesso, e daí em diante filmes alternativos passaram a ser exibidos regularmente; ocorrendo debates e conferências. As matinês de sábado eram promovidas muitas vezes com a presença de gente ligada ao ci­nema, tais como Rodolfo Nanni, Abdias Nascimento, Alberto Ca­valcanti, Walter Hugo Khouri, entre outros. Começaram a montar uma filmoteca e bibliografia especializada, estimulando a reflexão sobre o cinema, bem como o cine –amadorismo.

O Clube de Cinema fazia também programações conjuntas com outras instituições culturais como, no Festival Música Nova em 1963, junto com o Clube de Arte e a Sociedade Ars Viva.

Maurice se destacou assim por um trabalho intenso de agitação cultural, com as programações freqüentes de ciclos de cinema nas décadas de 50 e 60, e com a criação da sessão da meia-noite, primeiro no cine Roxy e depois no Glória, que se estendeu até fins dos anos 70. Nessa programação pontearam os ciclos do moderno cinema japonês e do cinema novo nacional.

Dos debates que se seguiam à exibição dos filmes, participaram conhecidos atores, críticos e diretores do cinema brasileiro, como Ozualdo Candeias, Hector Babenco e Carlos Reichenbach. Este último fez uma pequena homenagem a Maurice no seu filme Alma Corsária (1993), onde o mesmo fez uma ponta, representando o cineasta norte americano Samuel Fuller.

Em 1980, o Clube de Cinema passa por um processo interno de cisão, e Maurice resolve montar sua própria instituição, com o acervo que acumulara durante todos os anos de atuação na área. Nascia então a Cinemateca de Santos, que passou a funcionar no prédio da antiga Casa de Câmara e Cadeia, mais popularmente conhecida como Cadeia Velha e, a partir de 1991, em uma casa no bairro do Mercado, sempre com o apoio da Prefeitura de Santos.

Na Cinemateca, Maurice continuou a desenvolver o mesmo trabalho que desempenhava no Clube de Cinema, apresentando ciclos especiais, usando o próprio local, uma enorme cela do antigo presídio. Logo, entretanto, o uso do video começava a mudar os hábitos do público e Maurice decidiu, então, montar uma videoteca especializada, juntando a cada filme todo o material de que dispunha sobre diretores, atores, escolas e outras fontes importantes de referência. Afinal, ao longo dos anos, ele havia colecionado um impressionante acervo de material sobre cinema, como revistas e livros especializados, equipamentos como filmadoras, projetores, moviolas, discos de música para cinema, além de uma biblioteca mais geral sobre cultura.

Metódico e obstinado em sua paixão pelo cinema, ele montou um extenso arquivo de pastas para consulta, a partir de recortes de críticas e notícias sobre os variados aspectos do cinema. Eram centenas e centenas de pastas por diretor, ator, músico e outras referências usuais.

Maurice ainda fez duas tentativas, nesse período, de realização de programações especiais.  A primeira foi feita em conjunto com o Sindipetro – Sindicato dos Petroleiros, localizado Avenida Conselheiro Nébias. A estréia, na noite do dia primeiro de maio de 1992, contou com a presença maciça de toda a comunidade cultural da região, além da presença de cineastas de São Paulo. A segunda tentativa, em 1997, quando já estava bem doente, foi um Ciclo de Revisão do Cinema Moderno, que aconteceu aos sábados à tarde, no cine Indaiá-Arte, de março até mais ou menos a data de sua morte, em maio do mesmo ano.

Alguns anos após sua morte, em 1997, a Cinemateca e todo o seu acervo foram transferidos para uma casa no bairro do Campo Grande, onde sua filha, Patrícia Legeard, mantém a instituição funcionando, ainda com o apoio da Prefeitura e de um grupo de associados mais ligados ao pai.

Anúncios

Não Estou Lá

4 março, 2008

naoestoula.jpg

Por Claudio Prandoni

“Homem casado, poeta, cantor, compositor, guardião, porteiro…”

Bob Dylan é de tudo um pouco, ou ao menos é o que ele clama – essa frase aí em cima é dele numa entrevista pra revista Rolling Stone em 1969. Essa é também a presunção e êxito de Não Estou Lá, obra do diretor Todd Haynes fermentada por ele durante quase dez anos.

Com a mesma ingenuidade e magnificência da personalidade de Dylan, o longa-metragem é denso, psicodélico, apaixonante e desconfortável. E mais um pouco. Faltam adjetivos para traduzir com precisão (se é que isso é possível) a atmosfera um tanto quanto inebriante de Não Estou Lá.

A premissa é inteligente: uma reimaginação fragmentada da vida do músico, mostrando seus diversos momentos na carreira por meio de seis personagens distintos. A execução suplanta qualquer expectativa e previsibilidade.

Dylan diz que aceita o caos, mas não tem lá muita certeza se a recíproca é verdadeira. Para Todd Haynes ela é de uma forma desconcertante e magistral. O sexteto de figuras protagoniza sete histórias distintas, todas entrelaçadas. Porém, não de maneira lógica e cronológica – ao menos na maioria do tempo.

O entrecho faz flashbacks em flashbacks, salta à frente no tempo, pausa, retrocede, avança em câmera lenta, dá piruetas e saltos no ar sem a menor cerimônia. O conceito de “é um passeio numa montanha-russa” é batido, mas pode se aplicar aqui.

Não, não. Alto lá.

(more…)