Archive for the ‘Clássico’ Category

Acossado

7 novembro, 2017

a_bout_de_souffle__breathless__by_intothewild142-d5b28ri

(À Bout de Souffle, 1960, França, 90 min)

Por Gustavo Lucas

Um jovem, hoje, que resolva assistir um filme de Jean-Luc Godard como, por exemplo, “Acossado” (A Bout de Soufle, 1959), se não tiver algum conhecimento prévio do que acontecia no cinema do pós-guerra, vai se perguntar: “onde está a tal obra-prima?”.

Para respondermos esta pergunta temos que entender o movimento cinematográfico da Nouvelle Vague (nova onda) do qual “Acossado” faz parte.

Em meados dos anos 1950 na França, críticos da revista “Cahiers du Cinéma” (entre eles Jean –Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol e Eric Rohmer) começam um movimento no qual repudiam o cinema comercial e buscam uma linguagem nova, original, para o cinema da época.  Para isso, passam a estudar as obras de diretores que eles classificam como “autores”, dentre eles Alfred Hitchcock, Jean Renoir, Jacques Tati e os diretores do neo-realismo italiano, como Roberto Rossellini, Vittorio de Sica e Luchino Visconti.

Deste estudo, saíram filmes como “Nas Garras do Vício” (Le Beau Serge, 1958) de Claude Chabrol e “Acossado” (1959) de Jean-Luc Goddard, marcos inicias do que a escritora Françoise Giraud chamou de Nouvelle Vague. As características mais marcantes deste movimento eram produções de baixo orçamento, atores desconhecidos, poucas qualificações técnicas, temáticas cheias de discussões existencialistas, quebra de narrativa, entre outros aspectos que batiam de frente com a linguagem vista até então no cinema.

Em “Acossado”, a história partiu de um argumento de François Truffaut que, baseado em uma notícia de jornal, juntou-se a Claude Chabrol para escrever o roteiro, que contou também com Jean-Luc Godard no processo. Mesmo com roteiro aparentemente finalizado, ele ainda era reescrito diversas vezes durante as filmagens.

A história gira em torno de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo), um marginal inconseqüente que, a bordo de um carro roubado rumo a Paris, acaba matando um policial rodoviário. Em Paris, ele revê a bela estudante americana Patricia Franchini (Jean Seberg) e a convence a escondê-lo em seu apartamento até que possa receber o dinheiro de uma dívida e fugir, junto com ela, para a Itália.

A narrativa do filme é fragmentada, ou seja, alguns elementos da trama não são explícitos na tela, como por exemplo, na seqüência em que Michel mata o policial e sai correndo. E, apesar de ser um filme policial, parte do filme se passa dentro do apartamento de Patricia, onde ela e Michel conversam sobre a vida, a morte e a arte.

O próprio comportamento dos atores em cena é diferente, enquanto nos filmes clássicos a câmera é vista como um observador que não faz parte daquele mundo, apenas acompanha os acontecimentos, já nas produções da Nouvelle Vague, o espectador é convidado a participar da história a partir do momento em que o ator olha para a câmera e começa uma “conversa com o público” de forma a instigar discussões sobre os mais variados assuntos.

Ironicamente, “Acossado” foi refilmado em 1983 em uma produção norte-americana dirigida por Jim McBride com Richard Gere como o marginal Jesse. Aqui os eventos são transportados para os Estados Unidos dos anos 1980, e a nacionalidade dos personagens é invertido, de forma que a garota, a americana Patricia do original, aqui é a francesa Monica Poiccard (Valérie Kaprisky). E a rota de fuga do protagonista começa em Las Vegas de onde segue para Los Angeles, rumo ao México.

A refilmagem, que contou com uma primeira versão do roteiro escrita por Michael Mann (O Informante – The Insider de 1999, com Al Pacino e Russel Crowe), não obteve o mesmo impacto que o original em sua época, mas mesmo assim não deixa de ser um filme interessante de se assistir.

Anúncios

Glória Feita de Sangue

26 fevereiro, 2009

gloria_feita_de_sangue1

(Paths of Glory; Guerra, 87 min; 1957; EUA; Direção: Stanley Kubrick; Produção: James B. Harris; Roteiro: Stanley Kubrick, Jim Thompson e Calder Willingham, baseado em livro de Humphrey Cobb; Música: Gerald Fried; Fotografia: Georg Krause; Direção de Arte: Ludwig Reiber; Edição: Tom Finan; Elenco: Kirk Douglas, Ralph Meeker, Adolphe Menjou, George Macready, Wayne Morris, Richard Anderson, Joe Turkel, Peter Capell, Kem Dibbs, Timothy Carey, Susanne Christian)

Por Gustavo Lucas

Glória Feita de Sangue é uma adaptação do livro homônimo de Humphrey Cobb, escrito em 1935, e um dos primeiros filmes do diretor norte-americano Stanley Kubrick, que já demonstra suas habilidades técnicas e originalidade em conduzir a narrativa.

O filme conta a história de um general que, durante a Primeira Guerra Mundial, em busca de uma condecoração, ordena que seja realizado um ataque às frentes inimigas, condenado a falhar. Durante a batalha, o general ordena que atirem nos soldados que estiverem recuando, obrigando-os a continuar. Com o fracasso da operação, o alto comando acusa três soldados por covardia e os leva à corte marcial pedindo a execução dos mesmos.

A maneira pela qual Kubrick retrata a visão dos generais em relação aos seus subordinados mostra claramente uma postura anti-bélica do diretor. Vale destacar duas cenas em que este aspecto fica claro: a primeira, o general Mirneau, interpretado pelo ator George Macready, para justificar seu pedido de execução, diz que a única prova de que não houve covardia dos soldados seriam seus corpos mortos nas trincheiras; e na outra, na qual o general Broulard, vivido pelo veterano ator Adolphe Menjou, diz que soldados são como crianças e precisam de disciplina e o jeito é fuzilar alguém para atingir tal objetivo.

O ator Kirk Douglas (que assina a produção do filme através de sua produtora Bryna Productions) faz o coronel Dax que se contrapõe à decisão do general Mirneau, mas é incapaz de evitar a execução dos soldados.

O filme privilegia o enfoque realista do sistema bélico e evidencia decisões que revelam a crueza e a insensatez da guerra.

Com grande conhecimento em fotografia e iluminação, Kubrick faz o contraponto entre os oficiais do alto escalão e os soldados, presente no roteiro, visível já na composição dos quadros e os movimentos de câmera.

A composição dos quadros é simples e eficiente. Os generais circulam por ambientes amplos e bem iluminados, em que eles aparecem espalhados pelo cenário e não possuem uma sombra muito marcante. Os soldados nas trincheiras, por sua vez, vivem em lugares pequenos e escuros, como os tetos são baixos a luz geralmente corta o personagem deixando parte de seu corpo no escuro. Provavelmente foram filmados com lentes de 25mm que dão uma impressão bem mais grandiosa a lugares abertos, no caso dos pequenos parecem extremamente apertados.

Já os movimentos de câmera, dentro desta relação generais x soldados, são similares, porém diferem justamente pela composição da cena. Enquanto em ambientes abertos à panorâmica junto de um plano aberto mostram a imensidão destes lugares, nos fechados, em plano médio, aumenta ainda mais a sensação claustrofóbica, com os personagens sobrepondo-se uns aos outros. A cena que, sutilmente, mais separa os generais dos soldados está na visita do general Mireau às trincheiras. Este travelling (característica presente em todas as obras do diretor) acompanha Mireau interagindo com as suas tropas, e durante o trajeto ocorrem algumas explosões ao lado no campo de batalha, e a única pessoa presente que se abaixa para se proteger é o general.

Diferente de praticamente todos os filmes americanos desta época, “Glória Feita de Sangue” não apresenta final feliz. Ele se preocupa em mostrar como uma guerra pode criar rapidamente monstros e vítimas, que vão ficando pelo caminho. No final, quando uma jovem alemã (interpretada por Susanne Christian) é forçada a cantar para os soldados em um bar, é bem representada a fragilidade emocional que a guerra causa, quando todos param de caçoar da moça e começam a acompanhar a canção murmurando e com lágrimas nos olhos. E, do lado de fora, o coronel Dax é avisado de que seus homens foram novamente chamados para o fronte. A canção transforma-se em marcha militar. A guerra não acabara. Isto é algo que enriquece ainda mais a postura política da história.

Apesar de possuir uma filmografia relativamente pequena, Stanley Kubrick se destaca em cada um de seus projetos por buscar novas formas de se contar uma história, e é neste filme que suas marcantes características começam a ser claramente vistas.

Inimigo Público

26 fevereiro, 2009

 inimigo-publico-poster011

(The Public Enemy; 1931; EUA; Policial; 84 min; Direção: William A. Wellman; Produção: Darryl F. Zanuck; Roteiro: Harvey F. Thew, baseado em estória de Kubec Glasmon e John Bright; Edição: Edward M. McDermott; Estúdio e distribuição: Warner Bros; Elenco: James Cagney, Jean Harlow, Edward Woods, Donald Cook, Beryl Mercer, Murray Kinnel) 

Por Gustavo Lucas

Junto com “Alma no Lodo” (outra produção da Warner Bros, lançada poucos meses antes), “Inimigo Público” foi pioneiro de um gênero que veio a obter muito sucesso durante a Depressão americana (anos 30), o dos filmes de gângster.

Dirigido por William A. Wellman (de “Wings”, Oscar de melhor filme em 1928), “Inimigo Público” mostra a vida do criminoso Tom Powers (James Cagney), desde seus primeiros delitos ainda na infância, o relacionamento com a família, até sua morte prematura. O título do filme não remete diretamente ao protagonista, mas sim ao que ele representa para a sociedade, ou seja, uma ameaça.

A história começa em 1909, com Tom e seu amigo Matt Doyle praticando seus primeiros furtos para um homem conhecido como Putty Nose (Murray Kinnel) e seu relacionamento distante com o pai, um policial. Depois em 1915, eles são abandonados por Putty em meio a um assalto mal sucedido, o que os leva a saírem da vida de crimes por uns tempos. Mas quando a Lei Seca entra em vigor em 1920 – proibição da venda de bebidas alcoólicas que se estenderia até 1933 – Tom e Matt (Edward Woods) começam a contrabandear cerveja e, a partir de então, vão ficando cada vez mais ricos e influentes. 

O filme retrata bem a figura do criminoso inescrupuloso que viu na Lei Seca uma oportunidade de fazer dinheiro através de atividades legais, tornando-se assim uma grande ameaça para as autoridades.

E James Cagney foi uma excelente escolha para viver Tom Powers, fazendo do personagem uma pessoa totalmente impulsiva e imprevisível, como na cena do café da manhã, na qual ele “espreme” uma laranja na cara de sua namorada. O físico do ator também proporciona uma certa dinamicidade devido à sua estatura baixa, compondo o tipo baixinho nervoso.

Apesar de pioneiros, estes filmes não trazem nada de inovador em relação à técnica ou à narrativa do cinema da época, ainda mais nesse período de crise econômica, já que experimentações custam dinheiro e não garantem retorno financeiro. O crédito fica mesmo pelo assunto abordado e a centralização da história na figura de um criminoso.

O gênero gângster veio como uma alternativa do chefe de produção da Warner Bros, Darryl F. Zanuck, para contornar os problemas da Depressão. Eram produções baratas (filmadas em estúdio, sem muitos movimentos de câmera, contando com apenas um ator de destaque, entre outras coisas) que mantinham o estúdio longe da falência e obtendo lucro. O mais interessante é ver como o roteiro respeita o Código Hays, que consta de uma lista de coisas que não deviam aparecer em um filme (como, por exemplo, mostrar cenas de crimes) para que grupos conservadores e religiosos não organizassem boicotes às produções.

Não Estou Lá

4 março, 2008

naoestoula.jpg

Por Claudio Prandoni

“Homem casado, poeta, cantor, compositor, guardião, porteiro…”

Bob Dylan é de tudo um pouco, ou ao menos é o que ele clama – essa frase aí em cima é dele numa entrevista pra revista Rolling Stone em 1969. Essa é também a presunção e êxito de Não Estou Lá, obra do diretor Todd Haynes fermentada por ele durante quase dez anos.

Com a mesma ingenuidade e magnificência da personalidade de Dylan, o longa-metragem é denso, psicodélico, apaixonante e desconfortável. E mais um pouco. Faltam adjetivos para traduzir com precisão (se é que isso é possível) a atmosfera um tanto quanto inebriante de Não Estou Lá.

A premissa é inteligente: uma reimaginação fragmentada da vida do músico, mostrando seus diversos momentos na carreira por meio de seis personagens distintos. A execução suplanta qualquer expectativa e previsibilidade.

Dylan diz que aceita o caos, mas não tem lá muita certeza se a recíproca é verdadeira. Para Todd Haynes ela é de uma forma desconcertante e magistral. O sexteto de figuras protagoniza sete histórias distintas, todas entrelaçadas. Porém, não de maneira lógica e cronológica – ao menos na maioria do tempo.

O entrecho faz flashbacks em flashbacks, salta à frente no tempo, pausa, retrocede, avança em câmera lenta, dá piruetas e saltos no ar sem a menor cerimônia. O conceito de “é um passeio numa montanha-russa” é batido, mas pode se aplicar aqui.

Não, não. Alto lá.

(more…)

Ação!

15 outubro, 2007

cinereview-topo-encontros-e-desencontros_mini.jpg

Por Claudio Prandoni

Desculpem o título clichê (só faltou Luz! Câmera!), mas creio que ele sintetiza bem a proposta deste blog: simplesmente falar sobre cinema.

Na verdade, especialmente mas não apenas sobre cinema, já que volta e meia você pode acabar encontrando aqui análises de livros, musicais ou seja lá que outro produto cultural as mentes aqui do CineReview decidirem destrinchar.

Assim sendo, separe a pipoca, aproveite a leitura e boa diversão!

CineReview em cartaz!

PS: A imagem que ilustra este post foi um teste para o cabeçalho deste blog. Uma espécie de versão zero do CineReview. Na foto está Scarlett Johansson no do pôster de Encontros e Desencontros, vulgo um dos filmes preferidos do autor deste post.