Archive for the ‘Comédia’ Category

Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes

11 setembro, 2017

lock stock

(Lock, Stock and Two Smoking Barrels, 1998, Reino Unido, 107 min)

Por Gustavo Lucas

Como exercício para crítica de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, tento refletir sobre as palavras do crítico de cinema Luciano Ramos, ao responder sobre qual seria a função da crítica.

“O crítico colabora para elevar o nível cultural cinematográfico do público, ou seja, ajuda as pessoas a formarem seus próprios paradigmas para avaliar os filmes que assistem ou aqueles que vão comprar ou alugar em uma vídeo-locadora… A boa crítica é aquela que enxerga além do que o cineasta pode perceber, o que não é dito obviamente ou explicitamente pelo realizador, o crítico, procura decifrar. Essa é a missão da crítica: esclarecer significados ocultos e caminhos obscuros até para o cineasta.”

No seu longa-metragem de estréia, “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (Lock, Stock and Two Smoking Barrels, 1998), Guy Ritchie já apresentava com clareza, as marcantes  características de sua direção que iriam ser mais evidentes nos seus próximos filmes, como Snatch – Porcos e Diamantes (Snatch, 2000) e o mais recente “RocknRolla – A Grande Roubada” (RocknRolla, 2008).

Ludmilla Carvalho compara Ritchie ao cineasta norte-americano Quentin Tarantino, diretor de “Cães de Aluguel” (Reservoir Dogs, 1992), “Pulp Fiction – Tempo de Violência” (Pulp Fiction, 1994) e os mais recentes Kill Bill: Vol. 1 e Vol. 2 (idem, 2003/2004):

“De fato o estilo de Tarantino possui muitas similaridades com o estilo desenvolvido pelo inglês Ritchie: os personagens marginalizados, interpretados quase sempre pelos mesmos atores (…), a edição maliciosa e rápida, os truques de câmera mirabolantes, a estilização da violência e a trilha sonora repleta de referências ao mundo pop”.

Concordo com Ludmilla Carvalho em parte, apesar de tanto Tarantino quanto Ritchie ambientarem suas histórias no submundo do crime, com ladrões e gângsters. Nas obras de Ritchie existe aquele humor inglês que um americano não consegue transpor para as telas do cinema, a violência aqui é mais suave, e Guy Ritchie tem uma maneira inteligente de desenvolver a narrativa. Ele demonstra um talento invulgar para tirar humor de personagens e situações bizarras e seus filmes fazem parte do universo do submundo londrino e consegue levar seus personagens ao limite da comicidade. Esse é o toque inglês de Ritchie.

Começando por seus roteiros, ressalto a narrativa acelerada, repleta de diálogos ágeis com várias pinceladas de humor, pelos quais o espectador é inserido neste submundo do crime londrino, onde os mocinhos são criminosos que ganham a vida com jogos, contrabandos e pequenos golpes, e os vilões são os inescrupulosos chefões e seus capangas, que sem pestanejar, matam qualquer um que atrapalhe os seus negócios. Aqui, a história começa quando os mocinhos entram em um jogo de pôquer contra os chefões e acabam perdendo tudo que tinham e ainda ficam devendo o dobro da quantia. A partir daí, os personagens entram em uma seqüência de enganos e coincidências em busca do dinheiro.

Como comenta Pablo Villaça:

“Como diretor, Guy Ritchie parece estar se divertindo durante todo o filme, já que não abre mão de utilizar qualquer recurso que possa auxiliá-lo na narrativa: flashbacks, cenas congeladas, divisão de telas, legendas, slow motion, desenvolvimento de inúmeras ações paralelas e assim por diante. Ritchie ainda consegue surpreender o espectador”.

O uso de câmera lenta, cortes rápidos, movimentos bruscos de câmera, o uso de lentes grande-angulares (que distorcem um pouco a imagem) são todos elementos que ajudam a dar o tom do filme. Alguns destes aspectos podem ser creditados ao passado do próprio diretor, do diretor de fotografia Tim Maurice-Jones e também do montador Niven Howie que começaram com vídeo-clipes e comerciais. Tanto que muitos de seus filmes possuem seqüências montadas de acordo com a música. As trilhas sonoras dos filmes de Guy Ritchie costumam ser marcantes, com canções de The Stooges, Dusty Springfield e Oasis, sem contar que é comum ver músicos famosos como Sting, Madonna, André Benjamin e Ludacris fazendo parte do elenco.

Todos os personagens do filmes são meio caricatos, de forma a defenderem idéias completamente opostas as suas ações, como Big Chris (Vinnie Jones), um cobrador de dívidas, que está sempre ao lado de seu filho Little Chris, a quem sempre tenta ensinar boas maneiras, e Soap (Dexter Fletcher) o mais correto do quarteto de bons criminosos, que não hesita em querer utilizar um facão para realizar um assalto por considerar mais eficaz que um revólver.

Os últimos minutos do filme são surpreendentes, para não dizer hilários e também explica os “dois canos fumegantes” do título.

Vale registrar a participação, pequena porém marcante, do cantor Sting (Trudie Styler, sua esposa, é uma das produtoras executivas) fazendo o papel de dono de um Pub e pai de Eddie (Nick Moran).

Uma característica de Ritchie é trabalhar quase sempre com os mesmos atores. É o caso de Jason Statham que fez os filmes “Revólver” (2005), “Snatch – Porcos e Diamantes” (2000) e “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998).

Os últimos minutos do filme são simplesmente bizarros, onde se pergunta se eles são idiotas ou não. Vale a pena assistir.

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Bastardos Inglórios

7 setembro, 2017

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(Inglorious Basterds, 2009, EUA/Alemanha, 153 min)

Por Gustavo Lucas

Este é o sétimo longa-metragem em sua carreira de diretor de Quentin Tarantino. O filme traz Brad Pitt como o tenente Aldo Raine, um militar norte-americano que recruta oito soldados judeus para se infiltrarem na França ocupada pelos nazistas, tendo como único objetivo exterminá-los.

Tarantino é um fã de cinema; não cursou escola de cinema como muitos diretores, todo o seu conhecimento vem dos anos em que trabalhou como balconista de uma video-locadora. Época em que assistiu a inúmeros filmes e assim adquiriu um vasto repertório, do qual faz uso diversas vezes em seus filmes, aproveitando elementos como música, enquadramentos, citações e até mesmo os gêneros cinematográficos. “Bastardos Inglórios” é claramente inspirado no filme italiano “Expresso Blindado da SS Nazista” (Quel Maledetto Treno Blindato, 1978), de Enzo G. Castellari.  O título deste filme, em inglês, é “Inglorious Bastards” enquanto o de Tarantino se chama “Inglorious Basterds”.

Cinéfilos de longa-data reconhecem em cada plano as refêrencias ou mesmo homenagens ao cinema, já que Tarantino costuma usar também atores e diretores de suas “inspirações” para fazerem pontas em seus filmes. Em “Bastardos Inglórios”, o diretor Enzo G Castellari interpreta a si mesmo durante a premiere de um filme na última parte do longa, e o ator Bo Svenson faz um coronel americano.

O cineasta escreve um roteiro com excelente narrativa que aposta na força dos diálogos, como é visto na cena de abertura do filme, na qual o coronel da SS, Hans Lada (Christoph Waltz) conversa com um fazendeiro francês, a fim de descobrir se o mesmo esconde judeus em sua fazenda. A cena, típica de um filme de Tarantino, termina com a aniquilação da família de Shosanna (Mélanie Laurent), que anos mais tarde planeja vingança contra os nazistas.

“Bastardos inglórios” é uma comédia histórica dentro de uma grande aventura, recheada de humor negro e totalmente desvinculada da realidade. A realidade de Tarantino é fílmica, ou seja, é irreal.

A violência estilizada é uma constante na obra do cineasta. Mas a violência é aplicada como uma forma de humor, em cenas por vezes absurdas e até grotescas. Isso acontece em “Bastardos Inglórios” na cena em que o “Urso Judeu” (Eli Roth) executa nazistas com um taco de beisebol e a maneira encontrada pelo tenente Aldo Raine de marcar com faca a testa de nazistas sobreviventes com uma suástica.

Pode-se dizer que Tarantino criou um gênero próprio de contar histórias, tanto que existem inúmeras teorias que ligam os filmes dele uns com os outros. Um exemplo é o curta-metragem brasileiro “Tarantino’s Mind” (2006) no qual Selton Mello e Seu Jorge discorrem sobre as tramas de Tarantino em uma mesa de bar.

Há quem diga que ele não passa de um plagiador, mas a maneira com que o diretor recria as idéias tiradas do próprio cinema consegue prender a atenção do espectador, seja para criar tensão ou apenas para retratar uma conversa entre duas pessoas – que costuma ser repleta de alegorias, como o discurso final de Bill (David Carradine) em “Kill Bill: Vol. 2”. Tarantino conseguiu deixar a sua marca e se transformou em uma referência para outros diretores como o inglês Guy Ritchie e o norte-americano Paul Thomas Anderson.