Archive for the ‘drama’ Category

O Banheiro do Papa

10 novembro, 2017

banheiro_do_papa

Por Gustavo Lucas

César Charlone estréia, juntamente com Enrique Fernández, na direção do premiado longa-metragem “O Banheiro do Papa” (El Baño del Papa”, 2007), uma co-produção Brasil, Uruguai e França.

Uruguai radicado no Brasil, Charlone tem em seu currículo a direção de fotografia dos filmes “Cidade de Deus” (2002), “ O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener, 2005) e “Ensaio sobre a Cegueira” (Blindness, 2008), todos dirigidos pelo brasileiro Fernando Meirelles.

A história gira em torno da real visita do Papa João Paulo II à pequena cidade de Melo, na divisa do Brasil com o Uruguai, no final dos anos 1980. A notícia da visita pela mídia local deixa os habitantes da cidade em alvoroço que, a poucas semanas do evento, começam a planejar formas de ganhar dinheiro com a vinda de milhares de pessoas para o lugarejo, já que a condição financeira local é precária e o evento é uma chance de melhorar de vida vendendo comida, souvenires, entre outras coisas, no dia.

O filme é centrado em Beto (César Trancoso) e sua família. Beto ganha a vida transportando mercadorias em sua bicicleta através da fronteira. O sonho de Beto é ter uma motocicleta, pois assim as viagens seriam mais rápidas, lucrativas e menos cansativas, e vê na visita do Papa como uma chance tentadora para realizá-lo. Mas, diferente de outros habitantes da cidade, ele tem a idéia de construir um banheiro para que os turistas possam utilizar sob cobrança.

O filme possui uma trama muito interessante misturando realidade com ficção, a forma como Charlone e Fernández vão discorrendo a história intercalando com algumas cenas em que habitantes de Melo são entrevistados para um telejornal mostrando suas crenças de que a visita do Papa irá fazê-los melhorar de vida, aumenta a simpatia dos espectadores pelos personagens. Mesmo parecendo um pouco lenta às vezes, a narrativa está longe do ritmo frenético e nervoso a que estamos acostumados a ver no cinema norte-americano, assim como as relações estabelecidas entre os personagens.

A direção de fotografia de Charlone começa a mostra todo seu potencial já na seqüencia de abertura, onde mostra a sombra no chão das bicicletas em movimento nas belas locações da divisa entre os dois países.

O filme apresenta elementos em comum com o cinema neo-realista italiano de Vittorio de Sica e o seu “Ladrões de Bicicleta” (Ladri di Biciclette, 1948 – ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1949) tanto por colocar a bicicleta como meio de subsistência dos personagens como por fazer uso de atores amadores. A comparação entre Antonio (Lamberto Maggiorani, protagonista de Ladrões de Bicicleta) e Beto é bem clara, pois ambos são homens comuns à mercê do destino, que para terem uma vida digna dependem muito da sorte enquanto o mundo parece indiferente ao que acontece a eles.

Sem nunca perder sua identidade latino-americana, “O Banheiro do Papa” caminha entre o humor e o drama, e não falha ao transmitir sua mensagem; por pior que seja a situação, é preciso sempre ter esperança.

Anúncios

Voltando para Casa

26 fevereiro, 2009

voltando-para-casa-poster011

(Julie Walking Home, 2002, Alemanha/Canadá/Polônia, 118 min.)

Por Gustavo Lucas

O filme “Voltando para Casa” (Julie Walking Home, 2002) é uma história sobre relacionamento e intolerância.

Carregado fortemente de apelos emocionais, principalmente nos momentos dramáticos da doença de Nick (Ryan Smith), filho da protagonista Julie (Miranda Otto), o filme é centrado nesta família e no trajeto que ela percorre até o reencontro da harmonia do lar.

Ao voltar de uma viagem com os filhos, Julie surpreende seu marido Henry (William Fichtner) tendo um caso. Na mesma hora, ela pega os filhos e se muda para a casa de seu pai, Mieczyslaw (Jerzy Nowak). Durante as discussões de separação entre Julie e Henry, seu filho Nick é diagnosticado com câncer, o que reaproxima o casal (mas não como era antes). Com a notícia de que o tratamento de Nick falha, Julie o leva para a Polônia a fim de ver um famoso curandeiro russo chamado Alexy (Lothaire Bluteau).

Neste momento, surge um conflito entre as famílias. Enquanto Henry é de família judaica e de formação cientifica (seu pai é médico e ele é biólogo), o pai de Julie é católico.

A diretora e roteirista polonesa Agnieszka Holland, de filmes como “O Jardim Secreto” (The Secret Garden, 1993) e, mais recentemente, “O Segredo de Beethoven” (Copying Beethoven, 2006), conduz a história com grande dramaticidade, desde o título: em inglês, Julie Walking Home tem o sentido de caminhar de volta para o lar, que sintetiza a sua jornada de retorno, desde o afastamento até a reaproximação, embora ela mal tenha saído fisicamente do mesmo. Ela assina o roteiro junto com os desconhecidos Roman Gren e Arlene Sarner.

O diretor de fotografia, Jacek Petrycki, que já havia trabalhado anteriormente com a diretora em “Filhos da Guerra” (Europa Europa, 1990), pega o clima nublado e frio do Canadá e, através de cores frias e tons azulados, cria um clima triste e amargurado onde o único refúgio é o próprio lar dos personagens, que possuem tons de cores quentes. Esta ultima característica também se deve à direção de arte de Ewa Skoczkowska e Marian Wihak, muito atuantes em produções para a televisão.

Os acontecimentos que marcam o filme acabam sendo catalisados pela interpretação dos atores, destacando a protagonista Miranda Otto, de “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” (The Lord of the Rings: The Two Towers, 2002) e “Guerra dos Mundos” (War of the Worlds, 2005), que nos apresenta uma Julie irriquieta por não se encaixar no ambiente em que está e pelos eventos ocorrentes que parecem fugir totalmente de seu controle; e Lothaire Bluteau (de séries de televisão como “24 Horas” e “Lei e Ordem”) no papel do curandeiro Alexy, que só pelos olhares já mostra ao espectador a pessoa ingênua e frágil que é. E com a montagem, de Christian Lonk, que soube aproveitar bem o uso de closes dos atores para realçar ainda mais as cargas emocionais de algumas cenas.

A música de Anton Gross (ou Antoni Lazarkiewicz) é elemento integrante da trama, tanto nas canções cantadas por Julie, como nas músicas instrumentais de fundo, ora intensificando o momento de uma cena, ora criando um distanciamento em outra. O uso da música durante a relação sexual de Julie e Alexy funde muito bem essas duas funções.

Ao tratar de temas polêmicos, como adultério, câncer e o próprio curandeirismo o filme fala, basicamente, da vida conjugal. Os altos e baixos enfrentados por Julie nesta jornada são verossímeis, talvez não tudo ao mesmo tempo, como no filme, mas não deixam de ser reais, o que pode agradar muitos espectadores, que irão se identificar com os acontecimentos pelos quais a protagonista passa e suas decisões.